sábado, 4 de agosto de 2007

A forma política que representa a maior vontade de convivência é a democracia liberal . Ela leva ao extremo a decisão de levar em conta o próximo e é o protótipo da "ação indireta". O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o Poder público , mesmo sendo onipotente , se limita a si mesmo e procura , mesmo à eventual custa de sua existência, deixar lugar no Estado em que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sentem como ele , isto é, da mesma forma que os mais fortes e a maioria. O liberalismo - é conveniente que se recorde - é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga à minoria e é, portanto, o grito mais nobre que já soou no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo fraco. Era inverossímil que a espécie humana tivesse chegado a uma coisa tão bela, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso não é de surpreender que prontamente essa mesma espécie pareça resolvida a abandoná-la. É um exercício demasiadamente difícil e complicado para que se consolide na terra. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Já não começaa a ser incompreensível semelhante ternura? Nada demonstra com maior clareza a fisionomia do presente como fato de que já vão sendo poucos os países onde existe oposição. A massa - quem diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário? - não deseja a convivência com o que não é ela. Odeia mortalmente o que não é ela.

José Ortega y Gasset - A rebelião das Massas.

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